Vida de Leiloeiro


Entrevista com Cláudio Gasperini

 Cláudio José Pagano Gasperini, nascido em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, filho de industrial do ramo gráfico e de uma dona-de-casa, o sexto de sete filhos, teve sempre nos animais sua grande paixão. Desde criança sempre dizia que queria ser veterinário, curso no qual acabou se formando no ano de 1985, em Uruguaiana (RS). Durante a faculdade, nos idos de 1982, teve seu primeiro contato com os leilões, onde começou atuando como pisteiro, trabalhando nos remates que aconteciam no Rio Grande do Sul. Depois de formado, abandonou as pistas e trabalhou como veterinário atendendo em fazendas nos municípios de Uruguaiana, Alegrete e Quaraí, na região da fronteira Oeste, do Rio Grande do Sul. Uma proposta de trabalho no Pará o fez sair do Sul, todavia, por questões adversas e alheias à sua vontade, acabou não se radicando por lá. Na volta para o sul, passando por Minas Gerais, para rever uma irmã, recebeu uma proposta de trabalho na área de veterinária. Iniciou-se, aí, sua história em Minas Gerais, porém a região onde estava não era forte em pecuária de corte, sua maior paixão. Ao mesmo tempo, via boas perspectivas, de longo prazo, em Minas Gerais, e já havia também encontrado aquela que viria a ser sua grande companheira nesta jornada, motivo pelo qual resolveu permanecer em Minas. Para conseguir este intento contactou a empresa Trajano Silva, das pioneiras em leilões no Brasil, com sede em Uruguaiana (RS) e escritório em Sete Lagoas (MG). Feito o contato com o Vadico, titular da empresa em Minas, voltou a trabalhar como pisteiro, no manejo do gado, no atendimento a clientes, na captação de negócios para a empresa. Paralelamente a isso, o Vadico, atendendo a solicitação do Cláudio, começou a colocá-lo nos leilões de gado de corte e de leite, como leiloeiro. Aos poucos, o ofício foi sendo aprendido, as correções foram sendo feitas, pelo mestre, e, em 1990, ele foi oficialmente credenciado pela FAEMG – Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais – como leiloeiro rural.
 Para seu aprimoramento profissional, aliou-se à base que tinha como veterinário a cursos específicos, de avaliação de gado de corte e de leite, chegando ao quadro de juízes da ABCZ. Todavia, não quis trilhar o caminho das pistas de julgamento. A intenção sempre foi o conhecimento necessário para ser usado como argumento consistente de venda, que a arte de vender, necessária a um leiloeiro, requer.
 Aos poucos as oportunidades foram aparecendo e, apoiado pelo Vadico, foi trabalhando para outras empresas em leilões de gado de corte e leite comerciais. Depois foram os leilões de reprodutores, matrizes e por aí afora. Hoje, além do Brahman, trabalha com várias outras raças bovinas: Nelore, Senepol, Bonsmara, Simental, Wagyu, Braford, Hereford, Gir Leiteiro etc., além de, em menor escala, realizar leilões de ovinos e equinos, em especial Mangalarga Marchador e Campolina.
 Minha história com a raça Brahman iniciou-se por intermédio de um grande amigo, titular de um dos criatórios pioneiros desta raça no Brasil, Moisés Campos, da Fazenda Querença. Como não existia no Brasil nenhum leiloeiro que conhecesse alguma coisa sobre Brahman, qualquer um servia, e o convite veio em função de nossa amizade. Com a colaboração do Dr. Mário Cárpena, que eu reputo como um dos maiores conhecedores da raça no mundo, que já assessorava a Querença, na época, tive minha primeira das muitas aulas que até hoje tenho com ele, sobre a raça.
 Como passei a impressão de conhecer sobre a raça, neste primeiro evento, nos outros que se seguiram meu nome foi sendo lembrado e, com a graça de Deus, nasceu aí um entrosamento entre mim e os criadores, que, com o tempo, só cresceu, a ponto de ser, por eles, carinhosamente, chamado de “A Voz do Brahman”. Tal declaração enche-me de gratidão para com todos eles, porém chama-me também à responsabilidade de estudar cada vez mais, acompanhar a raça dentro e fora do Brasil, para representá-los sempre da melhor forma possível.
 Como tudo nesta vida tem dois lados, com a profissão não poderia ser de outra forma. Ser leiloeiro é ter a oportunidade de conhecer muitos lugares, conhecer muitas pessoas, fazer amigos e desfrutar de bons momentos junto a estes. Como tudo que se faz com paixão, e eu sou um apaixonado pelo que faço, a satisfação e a realização que o trabalho me proporciona fazem com que eu me sinta abençoado por Deus. Do outro lado desta moeda estão os perigos das viagens (quase todos os leiloeiros têm suas histórias) e a família que acaba sendo sacrificada, já que a convivência sofre com as ausências das viagens. Novamente, é Deus quem nos permite levar a vida adiante, quando nos presenteia com pessoas especiais para esta jornada. Lúcia, minha esposa há vinte anos, Marina, Arthur e Lourenço, nossos filhos são motivos de sobra para renovar, diariamente, minha vontade de fazer mais e melhor o meu trabalho, ao mesmo tempo em que, com amor e paciência, conseguem compreender que a vida de um leiloeiro é esse eterno ir e vir. O mais importante, no final das contas, é aproveitarmos, com qualidade máxima, os momentos que podemos desfrutar juntos.
 O mercado dos leilões evoluiu muito, a transmissão pela TV foi uma ferramenta importantíssima nesse processo, democratizando e facilitando o acesso das pessoas a este mercado, ao mesmo tempo, gerando novos empregos diretos e indiretos. Este é um processo sem volta, até porque, o leilão é extremamente prático, reúne em um só lugar compradores e vendedores, e com a tecnologia de TV e internet, com transmissão para o Brasil e o mundo, multiplica este número de interessados, facilitando a vida de todos em um ambiente onde, cada vez mais, tempo é dinheiro. O advento dos leilões virtuais, se por um lado não permitem a mesma emoção dos presenciais, por outro, facilitam, em demasia, toda a logística envolvida, permitindo que boa parte da produção dos criadores seja comercializada de forma rápida e clara, mostrando para toda a população um pouco do que é o trabalho do produtor rural, o que, aliás, é uma boa forma de conscientizar a sociedade do papel fundamental que esta classe exerce. Você já se alimentou hoje? Agradeça a um produtor rural.
 Falando ainda de mercado, cada vez mais, a exigência por profissionalismo, competência, compromisso, responsabilidade aumenta. Assim tem sido em todas as profissões, em que apenas os melhores conseguem alcançar o posto ou o sucesso almejado. Pensando assim, para falar àqueles que estão iniciando em minha profissão ou que pretendam iniciar-se, é imperioso que tenham em mente que a vontade, a dedicação, a imparcialidade, o conhecimento do que se está vendendo, a disponibilidade e também o compromisso consigo mesmo, de atender ao cliente da melhor forma possível, são algumas das ferramentas que o leiloeiro tem de ter para alcançar seus objetivos. Penso que, trabalhando desta forma, seja nesta ou em qualquer outra profissão haverá sempre espaço para profissionais com esse perfil.
 Para finalizar, agradecer a Deus, nosso patrão maior, que fez do meu encontro com os leilões a oportunidade de me realizar pessoalmente, através dos verdadeiros amigos que fiz no meio, de minha família que é meu esteio, minha força e inspiração para seguir adiante e, profissionalmente, pelo reconhecimento, do mercado, ao meu trabalho, o que me anima sempre a melhorar.

 





E ai, o que achou dessa matéria? Deixe aqui seus comentários:






Copyright Interural. Todos os direitos reservados. Serviços: Assinantes | Fale Conosco | Anuncie aqui