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Gir


Otite parasitária em bovinos da raça Gir

 Patrícia Vieira Bossi Leite Médica Veterinária e mestranda em Ciência Animal pela EV - UFMG.(contato: patriciabossileite@gmail.com)
Co-autores: Romário Cerqueira Leite. Professor Titular da EV-UFMG. - Paulo Roberto de Oliveira. Professor Associado da EV UFMG.- (Departamento de Medicina Veterinária Preventiva - Parasitologia.)
 

 A raça Gir é virtuosa em questões produtivas, destacando-se pela capacidade de produção leiteira eficiente, com custos reduzidos nas regiões de clima tropical ou subtropical. Tanto o número de criadores como a demanda por genética da raça tem crescido em todo o Brasil. Em 2009, segundo relatório da ASBIA – Associação Brasileira de Inseminação Artificial –, foi a 2ª no ranking das raças leiteiras na venda de sêmen, perdendo apenas para a raça Holandesa. Segundo Vieira et al. (2001), 82% das propriedades rurais do Brasil contam com a influência da raça, principalmente aquela exercida na composição da raça Girolando. De acordo com Ledic (2009) estima-se que, atualmente, a população de bovinos Gir Leiteiro, puros de origem (PO) e registrados na ABCZ – Associação Brasileira de Criadores de Zebu – é de, aproximadamente, 79.000 animais.
 Os Zebuínos, devido à rusticidade inerente à espécie, são menos susceptíveis às infestações por ecto e endoparasitos, no entanto os animais da raça Gir são afetados por um problema sanitário que tem causado preocupação entre os criadores. Trata-se da otite parasitária, provocada por pequenos nematoides rhabditiformes (Rhabditis spp.). Esta enfermidade acomete, principalmente, animais de orelha longa, em regiões de clima quente e úmido, de acordo com Msolla et al. (1986) e Duarte e Hamdan (2004). Os animais infestados podem manter-se assintomáticos por muito tempo, ou apresentarem uma ligeira apatia com repetidos movimentos de cabeça, sintomas considerados sem importância e, às vezes, negligenciados pelos criadores. Nos casos mais graves, ambos os ouvidos apresentam descarga abundante de pus, com grande quantidade de parasitos. Segundo Abdalla et al. (2008), a doença causa grande desconforto para o animal, devido ao processo inflamatório, que provoca estreitamento do meato auditivo e perda da audição. Não raras vezes, o quadro evolui para otite média e interna, decorrente da ruptura da membrana timpânica e da infecção bacteriana secundária. De acordo com Faccini et al. (1992), poderá ocorrer comprometimento da inervação local e formação de abscessos no Sistema Nervoso Central causando sintomas neurológicos, como perda do equilíbrio e da coordenação motora, levando o animal, sem tratamento adequado, à morte.
 A enfermidade tem sido relatada por diversos autores em alguns estados do Brasil, como: Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Pernambuco e Distrito Federal (MARTINS JR. et al., 1971; LEITE et al., 1993; VIEIRA et al., 1998 e ABDALLA et al., 2008), os quais observaram uma elevada prevalência, variando entre 78,4% e 100%. Dentre os fatores epidemiológicos, predisponentes a esta parasitose, enumerados por Duarte et al. (2001), estão os chifres achatados e grossos na base, próprios da raça, que comprimem as orelhas, que, por sua vez, são longas e em formato de cânula. Tais características fenotípicas favorecem o acúmulo de cerúmen e secreções dentro do condutor auditivo, e propiciam um ambiente favorável ao desenvolvimento de microorganismos. A infestação pelo nematoide pode chegar a 14,3% dos bezerros e a 100% nas vacas mais velhas, com manifestações clínicas de diferentes intensidades nas diversas faixas etárias. Nos animais mais velhos os sintomas tendem a ser mais graves, com desvalorização comercial, principalmente daqueles refratários ao tratamento.
 Em geral, as enfermidades otológicas dos bovinos são negligenciadas nos exames clínicos de rotina, sendo, consequentemente, subvalorizadas pelos técnicos e criadores, que tratam apenas as afecções auditivas que se tornam crônicas e supuradas, ou quando o animal já apresenta comprometimento neural. E, ainda, por envolver órgão anatômico de difícil acesso, a não utilização de exames e equipamentos específicos impede a avaliação da gravidade do quadro e da amplitude das alterações decorrentes da doença, o que poderia favorecer muito na escolha de medidas de controle e tratamento.
 Para comprovação da presença do nematoide, a simples observação do conduto auditivo externo é suficiente quando a infestação é de moderada a grave, devido, principalmente, à presença de secreção com aspecto e odor característicos. A comprovação se faz coletando os parasitos por meio de um swab ou chumaço de algodão, com posterior observação, a olho nu, do material. No entanto, no caso das infestações subclínicas, encontradas em taxas de 20%, de acordo com Duarte et al. (2001), e que, geralmente, não são diagnosticadas, recomenda-se a lavagem do canal auditivo com água ou álcool boricado a 3% e observação do material coletado com o auxílio de uma lupa.
 Até pouco tempo a otite dos bovinos, em especial aquela causada por parasitas, era considerada como problema de um único indivíduo e, por conseguinte, sem estima econômica. No entanto, estando presente, na maioria dos rebanhos, passou a representar um acentuado problema sanitário no rebanho e, economicamente relevante, sobretudo para o proprietário de animais com pedigrees valorizados.
 Dentro deste contexto, constatam-se prejuízos econômicos ainda não quantificados pela literatura científica, mas citados por Msolla et al. (1993); Vieira et al. (1998); Vieira (2001); e Duarte e Hamdan (2004), assim como em relatos de criadores e profissionais da área. As perdas são acentuadas, com gastos com medicamentos e manejo diferenciado dos animais afetados. Ocorre também a diminuição da produção de leite, do ganho de peso, além de infertilidade e óbito de animais com alto potencial genético (MSOLLA et al., 1993; VIEIRA et al., 2001; DUARTE e HAMDAN, 2004). Apesar dos diversos fatores negativos decorrentes da enfermidade, as pesquisas ainda não são suficientes para a compreensão completa e o enfrentamento do problema.
 Segundo afirmações de Vieira et al. (2001), embora a doença tenha sido descrita há quarenta anos no Brasil, a dinâmica do parasitismo, em especial, a influência das condições climáticas, assim como o ciclo biológico e as formas de transmissão do parasito ainda são pouco conhecidos, apesar de fundamentais para embasar métodos profiláticos eficientes. Estudos futuros, como os que estão sendo conduzidos na Escola de Veterinária da UFMG/Belo Horizonte, devem priorizar maiores conhecimentos a respeito dos fatores de risco associados à presença do nematoides no rebanho, tais como: o combate a moscas; a limpeza e a higiene das instalações; o tratamento do esterco e o monitoramento e controle das infestações dos animais mais velhos, com chifres. Deve-se, ainda, levar em consideração que a doença pode ser importada para rebanhos livres, por intermédio da comercialização de animais contaminados.
 Soma-se ao exposto a atual variedade de protocolos de tratamento, usados sem padronização e com baixa eficiência, devido às constantes recidivas, somado ao custo elevado dos produtos ou à inviabilidade operacional dos métodos utilizados. Acredita-se que um dos aspectos relevantes para a abordagem e a solução do problema seria o envolvimento dos proprietários e também dos responsáveis pelos animais, uma vez que seu controle exige atividades laboriosas e repetitivas com a utilização de produtos prescritos de acordo com o grau de intensidade dos sintomas apresentados pelo animal, individualmente.

Referências:
ABDALLA, M. S. et al. Aspectos anátomo-patológicos da otite causada por Rhabditis sp em bovinos no estado do Rio de Janeiro, 2008. Brasil. Disponível em: http://www.sovergs.com.br/conbravet2008/anais/cd/resumos/R0743-1.pdf. Acesso em: 03/02/2009.
DUARTE, E. R.; MELO, M. M.; HAMDAN, J. S. Epidemiological aspects of bovine parasitic otitis caused by Rhabditis spp. and/or Raillietia spp. in the state of Minas Gerais, Brazil. Veterinary Parasitology. 2001; 101(1): 45-52.
DUARTE, E. R.; HAMDAN, J. S. Otitis in Cattle, an Aetiological Review. J. Vet. Med. B 2004; 51, 1-7.
FACCINI, J. L. H. et al. Distribuição geográfica e prevalência das espécies do Gênero Raillieitia Trouessart em bovinos no Brasil. Rev. Bras. Parasitol. Vet., 1, 2, 109-110 (1992).
LEDIC, I. L. O Gir leiteiro “puro”: uma realidade na América Latina. Disponível em: http://girbrasilartigos.blogspot.com/2010/01/o-gir-leiteiro-puro-uma-realidade-na.html. Acesso em 10/11/2009.
LEITE, R. C.; LEITE, R. C.; FACCINI, J. L. H. The diagnosis and treatment of bovine parasitic otitis caused by rhabditiform nematodes. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária. 1994; 3(1): 69-70.
MARTINS JR.; W. NUNES, I. J.; RIBEIRAL, L. A. et al. Nota sobre a ocorrência de Rhabditidae (Nematoda, Rhabditida) relacionados com otite em bovinos na região geo-econômica de Brasília, DF. Ciênc. Cult. 23, 248-249, 1971.
MSOLLA, P.; MATAFU, E. P. M.; MONRAD, J. Epidemiology of bovine parasitic otitis. Trop. Anim. Health and Production. 1986; v. 18: 51-2.
MSOLLA, P.; SEMUGURUKA, W. D.; KASUKU, A. A.; SHOO, M. K. Clinical observations on bovine parasitic otitis in Tanzania. Tropical Animal Health and Production. 1993; 25(1): 15-18.
VIEIRA, M. C. M.; SILVA, L. A. F.; BORGES, N. C.; et al. Estudo da prevalência de otites clínicas por Rhabditis sp. Em bovinos da raça Gir no estado de Goiás. Goiânia-GO. Anais Esc. Agron. e Vet. 1998, 28(2): 19-29.
VIEIRA, M. C. M. et al. Parasitic otitis by rabditiform nematode in Gir cattle: evaluation of treatments. Ciência Animal Brasileira. 2001; 2(1): 51-53.





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Últimos comentários:
Geraldo Pereira de andrade - cach Alegre | 04/11/2013 18:40

Vários colegas gostaram da matéria e querem saber qual medicamento a ser usado. Obrigado

lerio gama sales - uenf | 02/11/2013 14:35

Muito ilustrativa, pois será muito util para os veterinários que trabalham diretamente com os animais. Mas qual o tratamento

JOSE JAIRO DE MIRANDA - RANCHO ALEGRE | 01/02/2013 12:14

Gostei da materia e é de muita importancia. Mas qual a medicaçao? Qual remedio devemos usar? Pois tenho animais doentes e preciso trata-los com mais detalhaes. Se puderem nos ajudar, seriamos eternamente gratos. Abraços.

edmilson nilo de moura - MOUNT VERNON RANCH | 24/08/2012 15:00

adorei a sua materia,isso e de grande importancia aos criadores de gado gir. eu no momento tenho um boi gir com esse sintomas de otite eu venho tratando dele desde fevereiro de 2012 e vejo muita pouca melhora. ja nao existe mais secrecao nas orelhas,e seu apetite esta bom ja ganhou um pouco de peso e esta cobrindo e remoendo muito bem. desejo saber o nome de algum medicamento p/ essa infermidade. por favor me retorne. obrigado pela atencao.

Adilton Ferraz - Capricho | 25/04/2012 17:12

Parabens a Drª Patrícia, realmente estes casos clínicos de otite em bovinos, nem sempre é levado a sério pelo Médico Veterinário e tão pouco pelo Proprietário do animal, tratando assim, como simplismente uma infecção do ouvido. Precisamos dar uma maior atenção a esta patologia, que muito tem ocorrido no rebanho brasileiro não somente em animais da raça gir, como tambem em animais de outras raças em especial leiteiras, tanto animais jovens como adultos causando grandes prejuizos, inclusive com descarte de animais acometidos pela doença. Att. Adilton Ferraz Med. Veterinário-BA

GIANCARLO FERREIRA MANFRIM - SAO MIGUEL | 15/08/2011 16:33

TENHO UM BOI GIR LEITEIRO E O MESMO FOI DIAGNOSTICADO COM OTITE,O VETERINARIO MANDOU APLICAR PENSIVET E SO E O BOI NAO MELHORA OQUE FAZER????

Leo/Edson - Faz. D'VETT | 16/04/2011 11:12

Parebens Drª, pelo belissimo e significativo estudo, este é um dos primeiros passos para que se possa aprofundar o estudo e concluir qual e o real e eficaz tratamento pra esta enfermidade.Persista na pesquisa, quardamos novos resultado.

Jose Antonio de sousa Monteiro - Polonia (Agua Fria de Goias) | 15/02/2011 19:26

Gostaria de saber o tratamento mais eficaz contra a otite. Desde ja agradeço.

daniel batuira - estancia moria | 27/12/2010 13:40

gostaria de saber qual medicamento e tratamento adequado para tratar otite. se existe forma de prevenção. desde ja agradeço.

emerson d coelho - casa do fazendeiro divinopolis ltda // fazenda tres barras | 05/11/2010 11:43

Caríssima doutora, estou com o rapaz ai em baixo, adorei a materia e de suma importancia. Mas qual a medicaçao? Qual remedio devemos usar? fico no aguardo. Se puderem nos ajudar, seriamos eternamente gratos. Abrçaos e muito obrigado

Geraldo Pereira de Andrade - Cachoeira Alegre | 01/06/2010 21:04

Achei legal a matéria e de muita importância para criadores da raça Gir. E a medicação.... Qual o remédio que deve ser usado? Atenciosamnete, Pereira.


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